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O improvável retorno de MAD

Publicado por: Alexandre Jardim | 6 maio 2020

Quem viveu a infância e a adolescência entre os anos de 1970 e 80, no Brasil, se lembra dele: Alfred E. Neuman, o mais conhecido personagem da satírica revista MAD. Uma publicação marcada pelo humor e que embalou gerações, fosse pelo sarcasmo ou pelo rosto peculiar do seu principal personagem que era colocado em situações sempre engraçadas nas hilariantes capas da revista. Era comum, naquela época, os jovens ficarem imaginando qual seria a próxima MAD e quem estaria na capa da revista em mais um novo sarro mensal. O Neuman, considerado quase como um integrante da turma, era sempre lembrado nas brincadeiras quando o negócio era “zuar” os colegas da escola ou os amigos do bairro. A mistura entre o garoto propaganda da revista e a própria publicação era tão grande que uns chamavam o personagem, ora de Neuman, enquanto outros, ora de “o Mad”, mas o que era senso comum em qualquer destes grupos era o tom de irreverência e – por que não? – também de maledicência de quem se utilizava deste personagem para “brincar” com alguém. A minha geração foi marcada pelas revistas em quadrinhos, mas com a MAD foi diferente. Ela marcou de tal forma que quase poderíamos dizer que crescemos numa era “Antes de MAD” e “Depois de MAD” (AM/DM). A revista era tão hilária que tinha como lema, estampado em suas páginas, a frase: “Não te deslumbre pela fachada de respeitabilidade porque, no fundo, somos todos idiotas”. O interessante é como tenho me lembrado disso ultimamente… 

O Neuman era um sujeito que não estava nem aí pra nada. Ele era daqueles que falam “E daí?!” quando alguém chega cheio de entusiasmo para lhe informar sobre um fato ou contar algo surpreendente. A MAD não dava chance a ninguém de escapar de suas sátiras e sempre fazia piada com a dificuldade alheia. Era do tipo de publicação que levava as situações com um humor sarcástico – inclusive até as mais graves – porque não se importava se era um problema mas se dele poderia fazer uma piada. Isso é o que realmente importava para MAD. O Neuman, como sempre o chamei, ou “o Mad,” como muitos dos meus amigos o chamavam, é um personagem fictício e nascido nos quadrinhos, no mês de março de 1955 (Data interessante!), nos Estados Unidos. A sua primeira aparição foi antes disso, mas o seu nascimento para a fama surgiu mesmo no ano de 55 em uma pequena imagem como parte de uma propaganda falsa criada como novidade para chamar a atenção do público (veja que FakeNews não é uma novidade de hoje e que o nosso personagem nasceu de uma delas). A repercussão teve muito sucesso e, três edições após, promoveu Neuman de mero desconhecido do meio da revista à destaque de parte da capa dela. Ao Brasil, ele chegou em 1974 e viveu por aqui até 2017 quando a revista parou de ser publicada para a tristeza de uma grande parte de jovens cinquentões como eu. Hoje, o Neuman teria 65 anos (idade do piadista) mas ainda conservaria aquele rosto juvenil e cheio de sardas, com algumas espinhas, as famosas orelhas de abano, um cabelo que variava entre marrom e ruivo e a sua marca registrada: o sorriso banguela com a falta de um dos dentes da frente. Se o Neuman estivesse por essas bandas de Brasília, atualmente, não pouparia ninguém e estaria fazendo novas piadas com tudo e sempre cheias de sarcasmo com o seu velho e conhecido bordão: “Quem, eu, me preocupar?” ou “O quê, me preocupar?”. 

Lembrar e falar do Neuman, nesta semana, me veio quase espontaneamente e por consequência dos fatos ocorridos, nos últimos dias, na “Capital do Poder”. Brasília é sem dúvidas uma cidade rica em histórias e personagens. Confesso que pensar em Neuman foi uma lembrança nostálgica mas também cheia de afeto e que me fez colocar em contraste a ficção e a realidade, em situações que nem sempre são de humor ou que se poderiam levar com sarcasmo, como faria Neuman se morasse por essas bandas do Planalto Central do Brasil. Penso como seria a capa desta semana se a MAD ainda fosse publicada. Confusões entre o Presidente da República e a Imprensa seriam uma pauta certa para ser estampada numa de suas capas. Talvez, o último episódio envolvendo o antigo ministro da Justiça e as nomeações na Polícia Federal teria sido um outro tema a ser explorado pela publicação. Como se não bastassem esses, há ainda os ataques dos apoiadores do Presidente contra instituições da República, como o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, num teste de força para a jovem balzaquiana democracia brasileira. Situações nada engraçadas, mas que o velho Neuman teria facilidade para transformar em piadas para serem estampadas nas capas da revista. O problema, atualmente para ele, seria a concorrência. É que ela anda tão forte, em Brasília, que por aqui já tem até piadista que acha graça onde ninguém vê.

Enquanto alguns riem, outros choram. Na política, por exemplo, os ânimos estão acirrados e a temperatura ferve trazendo fortes impactos à capital federal. Em meio a muitos e constantes acontecimentos, os combates ao Coronavírus e ao risco de uma depressão econômica – após a crise sanitária – deixam o clima ainda mais quente em Brasília. Se a briga política tem absorvido parte das atenções no país, a dupla COVID-ECONOMIA não fica atrás. Para muitos, de fato, essa é a notícia preocupante com consequências terríveis para o Brasil e sua população sem espaço para piadas ou brincadeiras. Se no campo da Saúde, as medidas sanitárias são tomadas para evitar o crescimento da pandemia, no campo econômico, as medidas são pensadas para evitar que a crise financeira seja ainda mais agravada com a manutenção do fechamento do comércio e a paralisação da produção industrial e seus efeitos diretos no consumo e na arrecadação de impostos. Uma mistura bombástica com chances de fazer bem menor a crise política que envolve os poderes da República. As imagens de filas imensas nas portas das agências da Caixa com milhares de brasileiros sem condições de suprir as mínimas condições de sobrevivência aliadas ao isolamento das classes média e alta em suas casas sem a compra constante dos bens de consumo, que movimentam a economia, são o reflexo de uma crise crescente e que piora a cada semana. Pior ainda é que tem quem gaste energia em brigas e conflitos políticos. É como diz o ditado popular: “Casa que não tem pão, todos brigam e ninguém tem razão”. 

Outro exemplo de como o tempo não está pra brincadeiras é o inquérito aberto pela Procuradoria Geral da República(PGR) para apurar as denúncias de tentativas – por parte do Presidente da República(PR) – de interferir na Polícia Federal(PF). O ex-ministro da Justiça disse que o PR desejava controlar as investigações na PF e, segundo ele por não concordar com a postura, decidiu sair do governo. Essa atitude levou ao desgaste do governo com o depoimento, contestado pelo PR que o acusa de mentiroso, no qual o ministro disse ter comprovado o desejo de intervenção. Já o PR alegou, em pronunciamento feito no dia da saída do ministro, que o seu desejo era só o de falar – diretamente e sempre que desejasse – com o Diretor Geral(DG) da PF e não de interferir em procedimentos do órgão. Apesar da dificuldade, o ministro disse em depoimento neste último sábado que o PR teria ligado para o antigo DG para comunicar a exoneração publicada no Diário Oficial(DO). Esse relato, sendo confirmado, demonstra que a comunicação entre o PR e o DGPF ocorria sim mas, talvez, não da forma como desejasse o PR. O ministro declarou que a dificuldade não seria a de só falar com o DGPF mas falar para conseguir a troca do superintendente da PF no Rio de Janeiro. Situação que já foi resolvida com a nomeação do novo DG nesta semana. 

Todas estas situações, se fossem separadas, dariam ao desenhistas do Neuman inspiração para muitas capas divertidas e sarcásticas. Porém, quando colocadas juntas e num mesmo momento como ocorre hoje em dia, fariam até os mais engraçados dos humoristas se calarem de tristeza. O brasileiro é sim um povo que prestigia o humor e valoriza uma boa piada, mas também sabe que quando parentes e amigos morrem por uma doença sem cura conhecida ou quando a geladeira está vazia e não há dinheiro pra comida, que não é hora de fazer a piada. A habilidade de fazer piadas dos difíceis momentos fez do brasileiro um povo que conseguiu superar dificuldades extremas, mas penso se agora as capas da MAD teriam o mesmo poder que tiveram de nos fazer rir no passado. Fico com a impressão que o Neuman foi “aposentado” na hora certa porque até a sua inclinação para brincadeiras e sarcasmos não pegaria bem num momento em que famílias contam seus mortos como números de uma insensível curva, que mostra a terrível realidade que vive o país. Nesse momento da nossa história até idiotas como o Neuman se sentiriam envergonhados em fazer piadas. Creio que nem mesmo ele conseguiria repetir a pergunta que o consagrou (Quem, eu, me preocupar?) por ver que essa não é a hora de tratar a vida com desdém. Eu também não acredito que se esconderia atrás de uma fachada de respeitabilidade, na qual só os insensíveis permanecem.

Alexandre Jardim